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1 Tessalonicenses 4:15-17

Paulo achava que seria arrebatado e depois disse que morreria?

Autor

Herbert Carvalho
primitivocristao.com.br
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Muita gente usa a mudança de expectativa de Paulo para dizer que a Bíblia falhou. Mas o próprio Paulo separa o que é mandamento do Senhor do que é seu parecer.

Muita gente diz que tem um erro na Bíblia, pois dizem que Paulo falou que ele seria arrebatado quando Jesus voltasse e não teria que morrer. E isso já aparece na primeira carta que ele manda para a igreja de Tessalônica. O assunto é justamente esse: o dia em que Jesus vai voltar buscar a sua igreja. E o jeito que ele escreve já entrega tudo. Ele diz:

“Dizemos-vos, portanto, isso pela palavra do Senhor, que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens para encontrar o Senhor nos ares e assim estaremos sempre com o Senhor.” 1 Tessalonicenses 4:15-17

Nós, não é eles lá na frente, um povo qualquer ou daqui a 2000 anos, é nós. Paulo se coloca dentro da fila de quem vai estar vivo naquele dia. Não foi só essa vez que ele escreveu assim. Pros Coríntios, ele repete a mesma ideia:

“Eis aqui vos digo um mistério. Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados num momento, num abrir e fechar de olhos, à última trombeta.” 1 Coríntios 15:51-52

De novo nós. De novo Paulo contando que há a real possibilidade de estar com os que vão ver aquilo com os próprios olhos em vida.

E é exatamente esse tipo de trecho que muita gente usa para tentar derrubar a Bíblia inteira. O argumento é sempre parecido. Os primeiros cristãos, incluindo os apóstolos, achavam que Jesus ia voltar naquela geração. Não voltou. Então, a profecia falhou. E se falhou aqui, não dá para confiar em mais nada ali dentro. Você já deve ter visto esse tipo de comentário ou até um vídeo inteiro em cima disso.

Nem Jesus sabia o dia

Só que tem um detalhe que ninguém pode ignorar aqui. O próprio Jesus, quando estava na terra, disse que nem ele sabia a hora:

“Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, mas unicamente meu Pai.” Mateus 24:36

E depois da ressurreição, quando os discípulos perguntaram direto se era naquele momento que ele ia restaurar o reino, a resposta foi ainda mais fechada:

“A vós não vos compete saber os tempos ou as épocas que o Pai reservou à sua própria autoridade.” Atos 1:7

Então, me explica uma coisa. Se nem os anjos sabiam, se o próprio Filho de Deus encarnado disse abertamente que não sabia o dia, como é que Paulo, um homem, ia ter certeza absoluta de que estaria vivo bem naquele momento? Ele não tinha essa certeza. E isso fica bem claro se você for acompanhando as cartas dele na ordem que ele foi escrevendo.

O tom muda em Filipenses

Anos depois de escrever aquilo pros tessalonicenses, Paulo estava preso escrevendo para a igreja de Filipos, sem saber se saía vivo daquela cela. E aí o tom mudou. Ele diz:

“Segundo a minha intensa expectação e esperança, de que em nada serei confundido, antes, com toda a confiança, Cristo será tanto agora como sempre engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte, porque para mim o viver é Cristo e o morrer é ganho.” Filipenses 1:20-21

Logo na sequência, ele admite que está em aperto, sem saber se prefere continuar servindo a igreja ou partir de vez para estar com Cristo, como a gente falou nos últimos vídeos, que para ele é incomparavelmente melhor. Dá para sentir essa diferença. Numa carta, “nós, os que ficarmos vivos”. Na outra, “seja pela vida, seja pela morte”. Não é mais alguém contando com uma certeza, é alguém dividido entre duas possibilidades reais.

E na última carta que temos dele, a segunda a Timóteo, já perto do fim, a dúvida acaba de vez, só que não do jeito que ele esperava lá no começo:

“Porque eu já estou sendo oferecido como libação e o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.” 2 Timóteo 4:6-7

O tempo da minha partida está próximo. Isso não é mais expectativa de arrebatamento de vida. É despedida. Paulo sabe que vai morrer, e provavelmente degolado ali em Roma, bem longe daquele “nós, os que ficarmos vivos” que ele teria escrito antes.

Paulo errou?

E é bem aqui que o crítico bate o martelo e diz: viu só, Paulo errou, a expectativa dele falhou. Então, a profecia falhou também e a Bíblia falha. Será mesmo que é assim que funciona? A resposta está dentro da própria Bíblia e é o próprio Paulo que dá ela pra gente, sem imaginar que estava respondendo uma pergunta de gente do século XX.

Em Primeira Coríntios 7, ele está respondendo dúvidas que a igreja mandou sobre casamento. E olha a honestidade dele:

“Digo isso, porém, por permissão e não por mandamento.” 1 Coríntios 7:6

Mas adiante, no mesmo capítulo, ele deixa bem separado o que é ordem direta do Senhor e o que é opinião dele mesmo. Numa parte: “não eu, mas o Senhor”. Noutra parte: “mas aos outros digo eu, não o Senhor”. No versículo 25, de novo:

“Ora, quanto às virgens, não tenho mandamento do Senhor. Dou, porém, o meu parecer, como quem tem alcançado misericórdia do Senhor para ser fiel.” 1 Coríntios 7:25

Sacou a jogada dele? O próprio autor autoriza dentro do texto sagrado: isso aqui é mandamento do Senhor e isso aqui é o meu parecer. As duas coisas ficaram na Bíblia. As duas são a palavra de Deus, porque inspiração divina não é ditado robótico, sem marca nenhuma de quem escreveu. É carta de gente real, gente com esperança, com pressa, com amor pela volta de Cristo, escrevendo de dentro de uma prisão sem o roteiro inteiro do futuro na mão.

Expectativa pessoal não é profecia falhada

E é por isso que eu acho forçado demais o jeito que boa parte dos críticos trata essa questão, como se um apóstolo não pudesse, em momento nenhum da vida dele, achar uma coisa e depois entender diferente. Como se toda carta escrita há 2000 anos tivesse que funcionar como um cálculo de precisão, sem espaço nenhum para uma expectativa pessoal, um desejo do coração, uma opinião que se ajusta com o tempo. Paulo podia sim achar uma coisa num primeiro momento e entender diferente mais para a frente. Isso não tira uma vírgula da certeza do fato em si. O arrebatamento continua sendo real. A promessa continua de pé inteira. O que mudou foi só a expectativa pessoal dele sobre quando ia acontecer, conforme Deus foi mostrando os passos da vida dele. Um tempo que, como o próprio Jesus falou, só o Pai conhece.

E no final dessa história é bonito demais para passar batido. Quando Paulo entende que vai morrer e não vai ser arrebatado vivo, ele não desmorona, não questiona a fé, não duvida de nada. Escreve com uma paz que só quem já fez as pazes com Deus consegue ter:

“Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora a coroa da justiça me está guardada.” 2 Timóteo 4:7-8

Os olhos dele continuavam em Cristo até o último dia, vida ou morte. E o encontro dele era certo, e isso bastava para ele.

A marca de um cristão de verdade

E essa é a marca de um cristão de verdade. Não é grudar numa data ou numa teoria de “eu vou ser quem vai ver tudo isso acontecer”. É manter o olho fixo em Cristo e confiar que, seja pela vida, seja pela morte, aquele encontro vai chegar.

Então, da próxima vez que alguém chegar com aquele argumento pronto, “os apóstolos achavam que seria naquela geração, não foi, logo a Bíblia falhou”, lembra da jornada inteira: de “nós, os que ficarmos vivos” até “o tempo da minha partida está próximo”. Isso não é contradição. É um homem sincero, escrevendo cartas de verdade, vivendo a fé dele em tempo real, de olho fixo em quem ele sabia, com certeza absoluta, que ia voltar.

Mas e os seus olhos? Onde estão?

Conteúdo de Herbert Carvalho · primitivocristao.com.br

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